quinta-feira, 19 de maio de 2016

Accept: turnê de “Blind Rage” também passou pelo Imperator no RJ

 
É verdade que alguns vinhos maturam com o tempo, mas somente se as uvas forem boas. Quarenta anos atrás, os jovens Wolf Hoffman e Peter Baltes estavam entre os melhores frutos produzidos pela videira que era a cidade de Solingen, Alemanha. Catorze álbuns de estúdio depois, nada mais justo que reivindiquem seu lugar de destaque na adega que é o heavy made in Germany.

Acompanhados de Mark Tornillo (voz), Uwe Lulis (segunda guitarra) e Christopher Williams (bateria), o guitarrista (56) e o baixista (58) trazem seu Accept de volta ao Brasil, um ano após a última passagem por terras tupiniquins, para dar o gás final na divulgação de Blind Rage, seu 14º álbum de estúdio, lançado em agosto de 2014. Só que, ao contrário da vinda anterior, desta vez o Accept traz seu show completo de duas horas sem aquela lengalenga de ficar apresentando cada som — o modus operandi alemão, por assim dizer. A etapa carioca do giro teve vez no Imperator, histórica casa de shows no coração da zona norte da cidade e preferida daqueles que encaram longas distâncias e transporte público para voltar para casa.

Todos ainda se acomodavam ou compravam cerveja e merchandising quando soou o playback e as cortinas se abriram, revelando um banner que ia de uma ponta a outra, com o touro enfurecido que ilustra a capa de Blind Rage e de pelo menos um terço das camisetas da plateia. O primeiro a dar as caras foi Williams, que ditou o ritmo para os colegas já entrarem descendo o braço em Stampede. Éramos o Simba em meio aos gnus em debandada, só que sem a esperança de um Mufasa para nos resgatar. Na sequência, com Stalingrad, tivemos o primeiro “ooooo” da noite.

O festival de velharias teve início com London Leatherboys e continuidade com Living for Tonight, Restless and Wild e Midnight Mover, celebrando a trinca ainda considerada imbatível — Restless and Wild (1982), Balls to the Wall (1983) e Metal Heart (1985) —, mas, dada a força do repertório atual, sob risco de ser destronada por Blood of the Nations (2010), Stalingrad (2012) e Blind Rage (2014), de onde vêm mais da metade das canções executadas pelo quinteto.

No palco, todos os cinco pareciam ter consciência do bom e velho “a união faz a força”, como as diferentes peças de uma engrenagem em pleno funcionamento. A perícia de obstetra, no entanto, não impediu que se lançasse mão do fator descontração: vide o duelo entre Hoffman e Baltes durante No Shelter, um dos destaques da noite. A preferida deste que vos escreve, porém, foi Pandemic, com solos estendidos em minutos de puro êxtase roqueiro.

No bis, as duas principais músicas da banda (Metal Heart e Balls to the Wall) dividiram espaço com o primeiro petardo desta nova fase (Teutonic Terror) e Son of a Bitch, representante solitária de Breaker (1981), cuja letra vale a menção no atual contexto de tretas de internet e polêmicas toco y me voy.

Sem sabedoria, a única coisa que vem com a idade são as rugas. Intensidade, equilíbrio e persistência: aspectos do vinho que se aplicam à banda que tive o prazer de ver pela terceira vez na vida no último sábado. A música do Accept é intensa, de pulsação constante; a apresentação é equilibrada, mantém o foco; e a persistência, aliada à paixão que você sente que é depositada em cada nota, em cada virada, em cada momento em que Tornillo berra como um motociclista que saiu voando pelo precipício, é o que assegurou a longevidade, a relevância e, para a nossa sorte, a indiscutível qualidade musical.



(Video demonstrativo) 




Fonte: Rock Brigade

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