sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Um obituário artístico do Ultraje, antes que seja tarde

 Roger Rocha Moreira - Foto: Wikipédia

A mídia tem explorado bastante nos últimos dias o que seria uma polêmica em relação ao tratamento dispensado ao Ultraje a Rigor por parte da plateia e pelo staff dos Rolling Stones. Em um resumo bem grosseiro, o Ultraje foi abrir o show dos Stones no Rio, alguém na plateia chamou Roger Rocha Moreira de “coxinha” – melhor definição, a meu ver, inexiste – e o educadíssimo bandleader dedicou “Filho da Puta” depois de soltar um enigmático “vocês vão cair”.

Mais tarde, alegou ter sido tratado como “lixo” pelo staff dos Stones. Houve gente séria que comprou a versão de Roger no princípio da fofoca de coxia, mas aí foi olhar mais atentamente o histórico de um e de outro e percebeu que tinha coisa estranha na parada.

Os shows dos Rolling Stones no Brasil já foram abertos por ícones do rock nacional como Rita Lee, Barão Vermelho, Cássia Eller e Titãs. Até o monumental Bob Dylan abriu apresentações dos Stones por aqui.
E não havia relatos, até agora, de maus-tratos sem que houvesse provocação, seja por parte da banda inglesa, seja por seu staff.

Já Roger tem em seu histórico coisas como o “migué” dado na abertura de um show de Peter Gabriel no SWU. Num contraponto interessante, o cineasta Carlos Gerbase, ex-batera do Replicantes, relatou a experiência de sua banda ao abrir um show do Ultraje nos anos 1980.

A falsa polêmica comprada pela mídia ao menos serviu para o grande público descobrir – ou relembrar – que uma das bandas mais promissoras dos anos 1980 não consegue, há quase 30 anos, espaço em jornais, revistas, rádios, TVs ou internet por causa de sua música. O Ultraje a Rigor transformou-se em um cadáver ambulante que, por algum descuido coletivo, não foi sepultado com dignidade. A reportagem aqui decidiu então fazer um último esforço e publicar aqui o obituário artístico do Ultraje a Rigor.

O primeiro disco do Ultraje, “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, saiu em 1985 com estrondoso sucesso. Era o primeiro redespertar do rock nacional. Salvo engano, todas as músicas do disco entraram nas paradas. Feito similar ao do RPM, a grande febre da juventude oitentista nacional. No ano em que o Brasil vivia o fim de uma ditadura civil-militar de mais de duas décadas, as letras de Roger chamaram a atenção pela irreverência, em uma época em que era cool dobrar a censura, que seria formalmente extinta apenas com a Constituição cidadã de 1988, esta mesma que garante as liberdades e os direitos de hoje e que alguns setores mais conservadores vêm tentando rasgar.

“Nós Vamos Invadir Sua Praia” é um discaço. Essencial em qualquer discoteca básica de rock nacional. O mais bacana para mim eram as guitarras de Carlo Bartolini, mais conhecido como Carlinhos. Rock é guitarra e o Ultraje tinha um dos melhores. Poucas vezes se viu no rock nacional um guitarrista com tanto bom gosto. Quem ouvir mais atentamente o disco vai perceber que Carlinhos tinha o timbre certo para cada ocasião, sem contar a excelente técnica e os belos arranjos.

Dois anos depois, veio “Sexo!!”. Outro sucesso estrondoso. Ainda que não tenha conseguido o mesmo feito do primeiro disco, “Sexo!!” emplacou vários hits além da faixa título. Um deles, “Pelado”, virou abertura de novela global, o máximo que um artista brasileiro podia almejar no Brasil dos Anos 1980.

Começou então o declínio. Carlinhos tinha saído da banda e, apesar de sucedido pelo também brilhante Sérgio Serra, a fonte de criatividade de Roger secou e a banda começou a cambalear. O terceiro trabalho, “Crescendo”, de 1989, emplacou duas músicas: “Filho da Puta” e “O Chiclete”. Mas não tinha mais a novidade, a mesma criatividade nem o mesmo apelo dos dois bons discos anteriores. Era o trabalho de uma banda com um contrato a cumprir com a gravadora e que precisava desovar a produção.

Depois disso os integrantes da banda foram saindo, as formações foram mudando e, ainda que tenha abrigado de excelentes músicos no decorrer dos anos, o Ultraje transformou-se num projeto pessoal de Roger. Pelas letras, é possível dizer que o líder do Ultraje envelheceu – como, aliás, acontece a todo ser humano -, mas não amadureceu. De 1989 em diante, Roger não produziu mais nada digno de nota. Nada disso, entretanto, desmerece a importância de Roger e do Ultraje para o rock brasileiro. Fazia parte do processo.

Até que, com o advento das redes sociais, Roger Rocha Moreira abdicou da posição de lenda viva do rock nacional e conseguiu, assim como Lobão, mais notoriedade pela exposição de opiniões ultrarreacionárias do que pela boa música que no passado teve o mérito de produzir. Deu vida própria ao “Rebelde Sem Causa”, ao reacionarismo assumido em “Eu Gosto de Mulher”, ao complexo de vira-latas evidente em “Inútil” e passou a enxergar comunistas embaixo da cama e dentro do armário.

Musicalmente, Roger parou no tempo. Ideologicamente, permaneceu na Guerra Fria. Por fim, transformou seu projeto pessoal em banda de apoio de um talkshow conduzido por um neofascista descontrolado. E antes que ele consiga transformar o Ultraje em uma nota de rodapé na história do rock nacional, nós prestamos  aqui sua singela homenagem.
Descanse em paz!



Com informações do Roque Reverso

5 comentários:

  1. Muito show o texto... Parabéns, e descanse em paz, Ultraje!

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  2. Caraca, muito louco! Descreveu a decadência do cara sem recorrer a "chulices" nem a ataques pessoais. Parabéns!

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  3. Roger é um babaca!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  4. Vergonha do rocK nacional

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  5. Valeu seu João você te uma boa ou ótima equipe.

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