quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

David Gilmour: em noite de chuva, músico brilha em Curitiba

 
David Jon Gilmour trouxe ao Brasil uma estrutura impressionante para a série de shows que divulgam Rattle That Lock, seu último disco lançado esse ano: Dez contêineres de equipamento, 150 pessoas envolvidas e mais 150 da produção local. Tudo isso para deixar tecnicamente impecável a apresentação de quase três horas, repleta de luzes, lasers e é claro solos de guitarra, excelentes timbres e muita afinação apesar da voz já um pouco cansada pela idade.

Aos 69 anos, o guitarrista não decepcionou o publico curitibano. Os fãs lotaram a Pedreira Paulo Leminski que tem capacidade para 25 mil pessoas e uma bonita área verde (inclusive muitas pessoas resolveram assistir o show em meio a pequenas árvores, tudo para ver melhor). Clássicos absolutos da era Pink Floyd como Time e Comfortably Numb não ficaram de fora e as composições recentes como A Boat Lies Waiting e a jazzística The Girl In The Yellow Dress funcionaram muito bem ao vivo.

O show começou com a introdutória 5 A.M. seguida de Rattle That Lock, com seu baixo marcante e backing vocals afinados. A dramática Faces of Stone veio depois, também do novo disco. O ponto baixo era a quantidade enorme de celulares e câmeras em meio ao público que atrapalhava e gerava gritos de protesto: “Desliga o celular! Depois você assiste no DVD!”, reclamava uma fã. Quando o clássico telão redondo mostrava o rosto de David, a plateia correspondia e gritava emocionada. Foi assim em Wish You Were Here, a primeira pinçada dos anos de Floyd.

O show continuava no clima meio psicodélico e na levada sempre calma de Gilmour. A Boat Lies Waiting, do trabalho mais recente, teve ajuda da sua esposa (que também é escritora) Polly Samson para ser escrita e agradou com os longos solos acompanhados dos arpejos no teclado. Depois veio The Blue, representando o disco solo On an Island, de 2006. Quando o telão passou a mostrar cenas de moedas e notas de dinheiro, marcas de grifes famosas e cenas de pessoas trabalhando, os mais atentos já esperavam pelo som das caixas registradoras que iniciam Money, um dos maiores clássicos do mítico The Dark Side of the Moon. O destaque ficou com o solo de sax do brasileiro João Mello, que tocava em sua cidade natal.

Para cobrir os custos da mega produção, o público curitibano sofreu com os abusivos preços da casa. Quem queria beber uma água precisava desembolsar oito reais e seguranças impediam a entrada de qualquer tipo de alimento ou bebida, forçando a compra dentro da casa. Os ingressos também foram bem caros, podendo chegar a mais de mil reais na pista premium. David Gilmour tratou de fazer cada centavo valer a pena. Us and Them foi interpretada perfeitamente e arrancou muitos aplausos. No refrão, luzes fortes ao redor do telão junto com o sax potente faziam um espetáculo sonoro e visual. Durante In Any Tongue, um drone foi visto filmando o show das alturas e em High Hopes todos cantaram a bela letra.

Em seguida, veio o primeiro intervalo da noite, de vinte minutos. Durante a pausa, começou a chover um pouco, nada fora do comum em Curitiba. Munidos de suas capas de chuva, os fãs ouviram a antiga Astronomy Domine (com um intenso jogo de luzes vermelho e verde) seguida de uma das melhores da noite: Shine On You Crazy Diamond, que foi tocada em versão reduzida (partes I até a V). Fat Old Sun e Coming Back To Life também fizeram uso das luzes que se misturavam com a fumaça. Nesse momento, David aproveitou para apresentar a banda, e depois começou todo o jazz de The Girl In The Yellow Dress. Na tela ao fundo, cenas do clipe de animação feito para a música. Mais uma vez o novo disco não decepcionou. A plateia encheu balões e proporcionou um bonito espetáculo à parte.

Outra recente que funcionou muito bem e encantou com o refrão bem agudo foi Today que precedeu Sorrow e Run Like Hell, uma das mais esperadas. Nesta última a plateia preparou uma surpresa para David ao mostrar centenas de cartazes com a palavra “RUN” escrita. A produção do show até parou de filmar a banda e mostrou os cartazes no telão.  A essa altura, se encerrava a segunda parte do show e um intervalo menor do que o primeiro precedeu o bis final que ficou com Time, Breathe e Comfortably Numb. Muitos fãs nessa altura estavam em lágrimas por presenciar um momento tão único e especial.

Gilmour foi eleito pela revista Rolling Stones como o décimo quarto maior guitarrista de todos os tempos e o solo de Comfortably Numb já foi eleito por várias fontes como o mais bonito da história, rivalizando com Stairway to Heaven, do Led Zeppelin. Números de lado, Gilmour dispensa credenciais e fez da sua primeira passagem pelo Brasil uma experiência inesquecível para quem presenciou. O show foi bastante focado nas músicas e seguiu um roteiro muito bem amarrado que foi quebrado poucas vezes como quando o guitarrista chamou seu técnico Phil Taylor, aniversariante do dia, para um “Parabéns pra você” cantado por 25 mil vozes. A produção usou e abusou das luzes, mas não foi tão ousada quanto prometeu.  No final, um sincero elogio aos fãs: “Vocês foram uma plateia fantástica!”.



Informações do Rock Brigade

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Arquivo do blog