segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

David Gilmour emociona em seu primeiro show no País


 

O Pink Floyd foi uma banda que despertou interesse desde suas origens psicodélicas, no auge da swinging London, por apresentar um som diferenciado, que por vezes resvalava na vanguarda. Ao longo do tempo, o grupo perdeu um pouco do experimentalismo, mas logrou grande sucesso ao forjar uma sonoridade viajante acessível à maioria do público, em discos como “Dark Side of the Moon” e “Wish You Were Here”.

Uma boa parte dessa identidade musical construída pela banda se deve à guitarra de David Gilmour, com seus solos melódicos que se tornaram parte integrante das canções e se eternizaram na memória dos fãs.

Por muitos anos foi esperada uma vinda de Gilmour ao Brasil, mas os boatos nunca se concretizaram, ao passo que seu ex-parceiro de banda, Roger Waters, já veio três vezes. Assim sendo, era natural o alvoroço dos fãs ontem, data do primeiro show do guitarrista do Pink Floyd na América do Sul, em turnê para promover seu último álbum, “Rattle that Lock”.
Desde as pessoas que pagaram R$ 1.200,00 para sentar em uma das cadeiras plásticas numeradas da pista premium, até os que se apertavam de pé lá atrás, na pista comum, todos, de todas as idades, estavam ansiosos pelo show.

Um dos vários motivos alegados por Gilmour, hoje com 69 anos, para não voltar a reunir o Pink Floyd é o peso das superproduções. Ele tem dito que prefere fazer o show dele do jeito dele, sem muita pompa, se é que isso é possível em um estádio de futebol. A estrutura do palco era relativamente simples, e o único telão era o famoso telão redondo imortalizado pelo Floyd, rodeado de holofotes. A iluminação, em compensação, não tinha nada de simples: oito containers foram necessários para trazer o equipamento - incluindo o citado telão.


 
Primeira parte

Pouco depois das 21h00, as luzes se apagaram no Allianz Parque, e os músicos adentraram o palco, sob muitos aplausos. Logo na introdução do show, com “5 AM”, música de abertura do novo CD, as primeiras notas da guitarra levaram o público a submergir na atmosfera onírica floydiana, e muitos isqueiros se acenderam no estádio.

Depois, na mesma sequência do disco, veio “Rattle that Lock”, com o telão exibindo o videoclipe da música. Ao final, surge no telão um mapa-múndi, com uma luz localizando São Paulo, ganhando os aplausos do público.

Ainda na sequência do disco novo, veio “Faces of Stone”, a primeira com o saxofone do brasileiro João de Macedo Mello, que teve bom desempenho durante o show. A voz de Gilmour se mostra grave e calejada, às vezes pendendo para um blues rasgado. No solo final, o telão exibiu pela primeira vez a imagem do guitarrista britânico dedilhando sua guitarra, para delírio da plateia. “Boa noite”, diz ele em inglês, saudando os presentes, antes de empunhar o violão para tocar o primeiro clássico floydiano da noite, “Wish You Were Here”, apoiado pelo violão base de Phil Manzanera. O público cantou junto, e se emocionou com o solo no fim, em que Gilmour acompanha com a voz as notas de seu violão.

O bom baixista Guy Pratt, que participou das últimas turnês do Pink Floyd, empunhou um baixo acústico nas duas próximas canções. Em “A Boat LiesWaiting”, Gilmour fez a introdução com slide em uma pedal steel guitar, e em “The Blue”, de seu CD anterior, “On an Island”, o telão voltou a exibir o guitarrista executando o solo em sua stratocaster preta.

Em seguida, mais um clássico floydiano: “Money”. Logo na vinheta de abertura, com o som de caixas registradoras e a animação exibida no telão, seguidos pela linha de baixo inicial, o público foi ao delírio.

Porém, algo deu errado, e a banda interrompeu a música. “Obrigado, só queríamos obter a atenção de vocês”, diz o guitarrista, bem-humorado, ao explicar que houve um problema com o baixo. Seguiu-se um tempo de espera, para que o problema fosse resolvido, durante o qual Gilmour agradeceu a compreensão de todos. Resolvido o problema, a música recomeçou, porém devido a um erro dos músicos ela foi novamente interrompida.

Apenas na terceira tentativa se ouviu a famosa linha de baixo característica da canção, a qual prosseguiu sem mais problemas, e com mais uma boa participação de João Mello. Se isso mostra que problemas acontecem até com artistas de primeira linha, por outro lado o imprevisto não chegou a prejudicar o show, justamente porque o importante ali era a música, e não dancinhas e coreografias como em shows pop. O público sabia disso, e por isso respeitou e aplaudiu em vez de xingar e vaiar.

“Us and Them” foi a próxima, seguida por “In Any Tongue” e “High Hopes”, já da fase final do Floyd, com mais solo de pedal steel guitar. “Thank you, obrigado”, diz o guitarrista antes do intervalo de vinte minutos.

 
Segunda parte

A segunda parte do show começou apresentando grandes clássicos floydianos. Começou com “Astronomy Dominé”, do primeiro disco do Floyd, antes da entrada de Gilmour, quando a banda era capitaneada por seu fundador, Syd Barrett. Em seguida veio um dos pontos altos do concerto, com “Shine On You Crazy Diamond (I-V)”, em que as melodias da guitarra e da voz transportaram os presentes a outra dimensão, em momento emocionante.

“Fat Old Sun”, de 1970, foi outro bom momento, com Gilmour começando a canção sozinho ao violão, e, após a entrada da banda, fazendo o solo final em uma guitarra telecaster bem gasta, no que pareceu ser o momento em que o britânico mais se empolgou no palco.

Em “On an Island”, do disco homônimo, o destaque foi o solo de guitarra de Phil Manzanera, o grande guitarrista de bandas como Quiet Sun e Roxy Music. Ter um músico da qualidade de Manzanera em sua banda de apoio não é para qualquer um, e só vem a engrandecer o espetáculo.

Após o blues com pegada jazzy “The Girl in the Yellow Dress” e “Today”, com andamento um pouco mais agitado, mais dois Floyds encerraram o set: “Sorrow” e “Run Like Hell” - nessa última, todos os músicos usaram óculos escuros.

Gilmour agradeceu aos presentes e os músicos saíram do palco - por pouco tempo, pois logo voltaram para o bis. Para não deixar nenhum fã de Pink Floyd voltar para casa infeliz, a banda tocou “Time/Breathe reprise” e “Comfortably Numb”, com o tecladista fazendo as vozes de Waters nessa última, e muitos feixes de laser iluminando o estádio durante os solos de guitarra.

Se o show tem um clima um pouco arrastado, e as músicas recentes de Gilmour nem sempre atingem o padrão de qualidade de sua antiga banda, uma coisa é certa: quando a guitarra entra solando, é impossível não admirar o timbre, a articulação, os bends e a classe de um dos maiores guitarristas do rock, inventor de uma estética que ficou famosa no mundo todo, e dono de um fraseado melódico incomparável. O público saiu satisfeito.

Se não vai haver volta do Pink Floyd, pelo menos seus principais ex-integrantes continuam fazendo música e turnês, e vale a pena vê-los, pois, como diz uma de suas músicas mais famosas, o tempo passa e todos envelhecemos, de modo que não se sabe por quanto tempo mais conseguirão se apresentar ao vivo. Já a música que fizeram ao longo das décadas, ficou provado que essa não envelhece.






Fonte: Território da Musica

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