segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Jethro Tull: The Rock Opera - Ian Anderson empolga com show multimídia


 
Uma banda de rock com flauta transversal, atmosferas pastoris e componentes folk: se você perguntar a alguém que banda é essa, provavelmente a pessoa responderá Jethro Tull. Desde o fim dos anos 1960, o grupo liderado pelo vocalista, flautista e violonista Ian Anderson faz sucesso com essa mistura, a ponto de Anderson ter se tornado a principal referência quando se fala em flauta transversal no rock.

O conjunto, que passou por muitas mudanças em sua formação, parece ter terminado de vez, já que o guitarrista Martin Barre, que esteve ao lado de Anderson desde 1969, não tem mais se interessado em tocar com o escocês. Barre está empenhado no próprio trabalho, no qual faz inclusive releituras bluesy de canções do Tull.

Entretanto, Anderson não tem demonstrado nenhum interesse em se aposentar: ao contrário, permanece ativo e criativo, compondo músicas e conceitos. A prova disso foi o show “Jethro Tull: The Rock Opera”, a que o público paulistano assistiu ontem, 07, no Teatro Bradesco.

Trata-se de uma ideia perspicaz de Anderson, que resolveu aproveitar o fato de que Jethro Tull foi o nome de um agricultor britânico do século XVIII para compor um espetáculo contando sua história, porém transplantada ao século XXI. A história é contada por meio das próprias músicas da ex-banda de Anderson, além de algumas músicas novas. Para que tudo se encaixasse, ele teve de mudar alguns trechos das letras de algumas canções antigas, como ele mesmo explica na entrevista concedida..

Com o teatro lotado, o show começa com o telão exibindo imagens de noticiários a respeito dos problemas climáticos e da escassez de alimentos, para ambientar e preparar o público para a história que virá a seguir.

 
Foto: Bianca Tatamiya / Teatro Bradesco

“Heavy Horses”, do disco homônimo, é a primeira música, e mostra que a banda está afiada. Embora com músicos diferentes, a formação no palco é a mesma do Tull: guitarra (Florian Opahle), teclados (John O´Hara), baixo (Greig Robinson) e bateria (Scott Hammond), além da flauta, violão e voz de Anderson.

Se no palco Anderson se mostra saudável e saltitante como sempre, e sua habilidade com a flauta só parece aumentar, já há algum tempo sua voz tem enfraquecido, a ponto de ele não conseguir cantar por inteiro algumas músicas. A solução para isso foi encontrada na forma de convidados que surgem no telão, para dividir os vocais com Anderson. Os convidados representam personagens da história, como o jovem Jethro e sua esposa, e suas intervenções são perfeitamente sincronizadas com a música tocada ao vivo no palco.

Seguem-se canções clássicas do Tull, como “Wind-Up”, “Aqualung”, “Locomotive Breath”, “Songs from the Wood” e “Witch’s promise”, às quais o público responde acaloradamente. Entre algumas músicas, vinhetas musicais são exibidas no telão, cantadas pelos personagens. Em “Living in the Past”, Anderson toca flauta em sua pose patenteada, com a perna levantada, para delírio da plateia.

Além das músicas mais famosas do repertório do Tull, é muito gratificante ver e ouvir canções como “With you There to Help Me”, “Back to the Family”, “A New Day Yesterday”, “Weathercock” e “Farm on the Freeway”, que são mais raras em apresentações ao vivo. Agradaram também algumas músicas novas, que se encaixaram muito bem no repertório, sem nenhuma perda de qualidade. Destaque para “Fruits of Frankenfiled” e “Stick, Twist, Bust”, que não ficam anda a dever às músicas mais conhecidas.

A sincronia com as vozes dos personagens no telão é perfeita, o que indica o uso de um click, um metrônomo sincronizado com a trilha do vídeo. Se isso possibilita um espetáculo multimídia de encher os olhos e ouvidos, também significa, por outro lado, que as músicas têm de ser tocadas sempre do mesmo jeito, o que talvez possa se tornar cansativo para os músicos. No solo de guitarra de “Aqualung”, por exemplo, surge no telão a imagem pré-gravada do guitarrista, executando o solo exatamente igual ao tocado por ele no palco. Assim, Opahle tem que tocar esse solo de modo idêntico todas as noites, para corresponder à imagem pré-gravada dele no telão.

O show termina com “Bourrée”, adaptação de uma peça de J.S. Bach gravada pelo Tull em 1969, enquanto é exibida uma ilustração do agrônomo Jethro Tull, que viveu na mesma época que Bach.
Contar a história de Jethro Tull em uma ópera-rock foi uma grande ideia de Anderson, pois assim ele conseguiu atingir vários objetivos de uma só vez: uma justificativa perfeita para dividir os vocais com personagens de uma narrativa, para trazer à tona canções antigas da banda Jethro Tull, para compor algumas novas canções.

Amarrando tudo isso com uma história, mudando algumas letras e arranjos, Anderson consegue fazer com que músicas antigas soem como novas. Isso a princípio nem seria necessário, pois provavelmente os ingressos se esgotariam de qualquer maneira mesmo que se tratasse apenas de um show convencional, com músicos tocando o repertório do Tull. Mas o fato de ele ter se preocupado em compor todo esse conceito, preparando vídeos complicados com computação gráfica e atores cantando sincronizadamente com os músicos no palco, mostra que o bardo escocês está plenamente ativo e produtivo, com a criatividade em dia, longe de se aposentar. Podemos esperar mais coisas boas vindas daí, com certeza.




Fonte: Território da Musica

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