segunda-feira, 27 de julho de 2015

Entrevista: Philip Selway comenta o próximo disco do Radiohead

Philip Selway

“Espero que não demore mais 20 anos”, diz o baterista sobre um possível show da banda no Brasil 
 
Philip Selway é um cara legal. Sereno, tranquilo e gentil, não se assemelha nem um pouco ao estereótipo do astro do rock. Difícil dizer só de olhar para ele que o inglês de 48 anos é, há quase 30, o baterista de uma das maiores bandas do mundo: o Radiohead.


Se a banda principal dispensa apresentações, talvez pouca gente conheça o trabalho solo de Selway. Multi-instrumentista, ele lançou o primeiro disco, Familial, em 2010. Ano passado deu sequência à aventura com o ótimo Weatherhouse. “Eu reconheci que havia algo muito particular no meu trabalho, uma voz lírica própria. Fora da banda, do Radiohead, é onde você pode tentar coisas. Porque a gente cobre um grande terreno musical, mas você não pode fazer qualquer coisa naquele contexto. Então, para nós, fazer coisas fora do Radiohead é a nossa oportunidade de mergulhar nesses experimentos”, explica o músico em entrevista para a Rolling Stone Brasil. “As duas coisas são muito importantes para mim. E é algo bom quando você está sozinho, se reflete no que fazemos como banda”, completa, ressaltando que todos os membros do quinteto inglês têm trabalhos paralelos.


A decisão de se lançar na carreira solo partiu da quantidade de material acumulado que o músico possuía. Liderar o próprio grupo, no entanto, não foi uma tarefa simples e ele admite que a autoconfiança aumentou exponencialmente na gravação de Weatherhouse: “Da primeira vez eu não conseguia enxergar o processo como um todo”.

Se em Familial formavam a banda de estúdio instrumentistas como Lisa Germano (musicista que já trabalhou com David Bowie e Iggy Pop), Glenn Kotche (Wilco) e Sebastian Steinberg (que integrou o Soul Coughing) – um time dos sonhos, segundo o próprio Selway -, no segundo disco ele resolveu apostar em Adam Ilham e Quinta, músicos que o acompanham nas apresentações ao vivo e conhecem todo seu repertório.

“Havia uma afinidade musical entre nós três, então tinha uma boa dinâmica e grandes possibilidades sobre o que podíamos fazer. Quando fomos fazer Weatherhouse, queríamos nos sentir como uma banda tocando ali. Nós gravamos muitos instrumentos e tínhamos um bom estúdio para trabalhar, tínhamos o estúdio do Radiohead, e tudo foi andando dessa maneira. Então, eu tinha a confiança, mas nós também tínhamos relações musicais sólidas e toda aquela animação para ver onde aquilo ia nos levar”, declara sobre os parceiros de produção.


Radiohead

Selway se mostra dividido sobre a influência da sua banda principal na percepção do público quanto ao seu
trabalho sozinho: “Acho que sou sortudo, porque as pessoas vão ouvir o que eu fizer por causa do Radiohead, mas é complicado porque demora um tempo até elas entenderem o trabalho por si só, fora do contexto do material da banda. Nesse segundo disco eu estava mais pronto a abraçar meu ‘eu-do-Radiohead’, isso é até mais perceptível”, acrescenta no seu costumeiro tom calmo de voz.

Sempre à frente do seu tempo, dentro e fora de estúdio, o Radiohead foi um dos primeiros grandes grupos a entender a nova dinâmica da indústria musical na era da internet. Se em 2007 a banda lançou de forma independente o lendário In Rainbows, que as pessoas podiam adquirir por download pagando o preço que quisessem, no ano passado o vocalista Thom Yorke resolveu vender seu disco solo por Torrent. Selway aprova: “Acho que foi ótimo o jeito que ele lançou o Tomorrow’s Modern Boxes e eu fico feliz que ele tenha feito dessa maneira. Há um esforço constante para arranjar uma solução em que os artistas consigam se sustentar”. A estratégia de Yorke deu certo e o álbum teve mais de um milhão de cópias comercializadas no formato inovador.

Quando questionado sobre o modelo de distribuição do novo disco do grupo, Selway se esquiva: “Precisamos primeiro ter um disco para depois resolver como vamos vendê-lo”, ri. “Mas nós já estamos trabalhando nele, certamente. Estamos de novo curtindo fazer músicas juntos e estamos aproveitando todo o processo”.
O trabalho mais recente do quinteto, King of Limbs (2011), não agradou a todo mundo. De orientação eletrônica, deu pouco espaço às poderosas guitarras do grupo ao optar por uma construção melódica baseada em sequências digitais programadas e loopings. Se o próximo disco seguirá a mesma linha? “Ainda não tenho como dizer, trabalhamos sempre nas coisas que nos empolgam. Nem vale muito a pena comentar, porque às vezes estamos na metade de algo e simplesmente mudamos completamente a direção”. Nem mesmo uma data de lançamento parece estar na mente dos músicos. “Nenhum de nós sabe. Não vamos nos prender a prazos. Trabalhamos muito intensamente quando trabalhamos juntos e nós vamos tomando as decisões no decorrer das coisas. É isso que guia o processo, que em algum momento será terminado”, arremata.

Essa sintonia do conjunto é a consequência e a razão pela qual o Radiohead sustenta a mesma formação de músicos desde o início da banda. “No coração disso há um respeito mútuo. Todos nós curtimos o que fazemos musicalmente nos nossos projetos paralelos e curtimos o que fazemos juntos e com o Nigel Godrich. Nós somos muito conscientes da nossa história e de que cobrimos muito terreno musicalmente, mas há uma certa sintonia musical que se adquire em quase 30 anos tocando juntos que você não quer desperdiçar”, confessa.

Show nos Brasil

O Radiohead e o Brasil têm uma relação complicada. Por anos uma das bandas mais pedidas do público, os ingleses finalmente fizeram duas apresentações no país em 2009, tocando no Rio de Janeiro e São Paulo, e tendo Kraftwerk e Los Hermanos como bandas de abertura. Selway relembra: “Foram dois shows muito intensos. Era nossa primeira vez no país como banda e, sabe, você nunca sabe se vão embarcar na sua música, então é sempre uma surpresa quando você chega a um lugar e as pessoas estão respondendo muito bem à música. E ainda estávamos tocando com o Kraftwerk, então foram duas experiências fantásticas ao mesmo tempo. Foi uma imensa, imensa sensação de alegria. Espero que não demore mais 20 anos pra voltarmos”.
Se o Radiohead não se mexer para tanto, o baterista não descarta uma vinda solo: “Eu adoraria”. 

Fonte: Rolling Stone Brasil
 

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