sexta-feira, 22 de maio de 2015

Meteórico (Nile)

Convertido em quarteto ao vivo, o Nile atropela o público sem remorso no Teatro Odisséia, no Rio

Em menos de uma hora, Nile repassa carreira com 10 músicas representativas da agressividade do mais técnico death metal americano. Fotos: Daniel Croce.

Imagine que a banda que você esperou uns 10, 15, 20 anos para ver ao vivo na sua cidade tenha feito um show de menos de uma hora. Mas que, mesmo assim, dada a urgência de uma apresentação com ares de atropelamento e a vibração de todos que agitam ao seu lado, não há motivos para lamentações. É o que acontece com o Nile, que estreou nessa quinta (21/5), no Rio. O trio (convertido em quarteto, ao vivo), para quem não é familiarizado, faz um death metal extremo e – dizem – técnico, e, embora americano, trata de temas ligado ao Egito antigo e arredores. Daí o nome, referência ao rio mais extenso do mundo, que saiu da África para brilhar na literatura, com Agatha Christie; em Hollywood, com David Niven; e até em uma – boa, diga-se – música do Capital Inicial.

Se a entrada no palco não tem o élan quem uma banda de metal merece, com os músicos montando os próprios equipamentos, incluindo pedaleiras e parafernálias eletrônicas, ao menos a paisagem poluída aproxima o público de Karl Sanders, o chefão da banda e único remanescentes da formação original do Nile. São dele os solos mais arrojados da noite, tirados de um afiadíssimo modelo flying V. Sanders divide as guitarras e os vocais com o eficiente Dallas Toler-Wade (sem a cabeleira de outrora, o tempo passa…), mas não é aquela coisa de vocais rasgados vocais versus vocais limpos, não. Enquanto um cospe tijolos em cacos, o outro vomita estilhaços de bomba caseira. E é disso, é disso que o povo que enche o Odisséia gosta.

Mesmo curto, o repertório inclui músicas de todos os álbuns do Nile, exceto o bom “Ithyphallic”, de 2007. O ponto alto da noite é “Kafir!”, tocada logo no começo. A música é espécie de peça semi-progressiva do death metal técnico dos caras, com direito a inserções de cânticos de origem egípcia/ancestral que funcionam muito bem ao vivo. Também, pudera: é decibel para todo lado, numa velocidade que realça ótima forma física, na agilidade de dedos sobre cordas e de braços sobre tambores. Das duas mais recentes, nem tão novas assim, já que o disco “At the Gate of Sethu” saiu há quase três anos, é “The Inevitable Degradation of Flesh” a que se sai melhor. 

Tamuya Thrash Tribe: o guitarrista/vocalista Luciano Vassan e o baixista J.P. Mugrabi agitam na abertura
Tamuya Thrash Tribe: o guitarrista/vocalista Luciano Vassan e o baixista J.P. Mugrabi agitam na abertura

Com grandes mudanças de andamento, repletas de precisão, a música vai da velocidade realmente extrema – que batera esse rodado George Kollias! – a trechos mais cadenciados pesadíssimos. É uma das poucas em que Toler-Wade canta na maior parte do tempo e tem direito a um solo dos mais agressivos. A pedrada é ideal para uma desenfreada bateção de cabeça e para os punhos serem erguidos ao ar, isso nos raros momentos em que as rodas de dança se sobrepõem umas às outras, uma máxima na noite. A música traz a reboque o clássico “Sarcophagus”, que só podia ser de uma banda vidrada em faraós, com Karl Sanders extraindo um vocal cavernoso das profundezas do inferno de sua castigada garganta.

O peso inicial, lento e arrastado, chega a doer na alma, de tão profundo. É como se Andrew Eldrich, do Sisters Of Mercy, súbito, descesse fantasmagoricamente sobre o palco para depois subir enquanto o público cantarola outro pomposo trecho, já no final. A música seria a seta para um desfecho arrasador, mas o clima dá uma caída coma apenas razoável “Lashed to the Slave Stick”, e não se recupera coma boa “Black Seeds of Vengeance”, cujo objetivo, com tanto peso, velocidade e agressividade, é devastar até os ouvidos mais acostumados a tanto esporro. Esporro técnico, mas ainda assim esporro dos bons.

Se o Nile vai até ao Egito em busca de inspiração, o Tamuya Thrash Tribe, do Rio mesmo, vai fundo na História do Brasil pré-Descobrimento; o vocalista/guitarrista Luciano Vassan chega a evocar o “Deus Tupã” antes e depois do show, na abertura da noite. O som, contudo, é menos extremo, mas não pouco pesado. A apresentação é curta e as melhores músicas são “Immortal King”, do disco de 2001, que encerra o show cheia de reviravoltas e boas e pesadas evoluções instrumentais, e a bem trabalhada “Empire” (ou algo parecido), que parece ser uma amostra do novo álbum, prestes a ser gravado. Talvez letras em português ou em tupi-guarani se encaixassem melhor na temática do grupo, mas aí já são outros quinhentos. 

 Nile  - Sacrifice Unto Sebek

Set list completo Nile:
1- Sacrifice Unto Sebek
2- Defiling the Gates of Ishtar
3- Kafir!
4- Hittite Dung Incantation
5- Supreme Humanism of Megalomania
6- The Howling of the Jinn
7- The Inevitable Degradation of Flesh
8- Sarcophagus
9- Lashed to the Slave Stick
10- Black Seeds of Vengeance


Com informações do Rock em Geral

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