quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Uns e Outros: "O Rock precisa de atrito", diz o vocalista Marcelo Hayena

 
Se você tem menos de 35 anos talvez não conheça de "Cartas Aos Missionários" e "Dias Vermelhos", mas essa músicas tocaram exaustivamente nas rádios nas décadas de 80 à 90.

São os maiores 'hits' do Uns e Outros, banda carioca encabeçada pelo vocalista Marcelo Hayena que prepara o lançamento de "Uns e Outros – 25 anos Ao Vivo", que comemora as duas décadas e meia do autointitulado disco que os colocou na cena nacional. Conversei por telefone com Hayena para saber um pouco mais sobre as novidades. Mas ele falou muito mais do passado do que do futuro.

E quando fala do passado, suas breves pausas levam a pensar que o músico está puxando da memória os acontecimentos, talvez visualizando algumas situações. Às vezes, dá a impressão que o músico esbarra em alguma melancolia no meio desse caminho. Mas por mais que tenha lamentado toda a dificuldade da época em que começou a tocar - os instrumentos toscos, a falta de profissionalismo - o músico valoriza esse período como algo que o fez crescer. O que não vê nos dias de hoje: tudo é muito fácil e, também, mais banal.

Solícito - conversou conosco por uma hora -, simpático e em alguns momentos contundente, Marcelo Hayena falou dos anos 80, da efemeridade dos dias atuais e até sobre os atritos com Renato Russo, assunto sobre o qual não falava desde o falecimento do cantor.

Foi fácil aproveitar o saudosismo de Marcelo para mergulhar em outros tempos junto às suas histórias. Confira como foi esse papo.


Vocês estão comemorando 25 anos do disco "Uns E Outros", que foi o grande sucesso da banda. Isso não é pouca coisa. A cena musical mudou muito de lá pra cá?
Marcelo Hayena: Nossa! Você tem quantas horas para essa entrevista? (risos)

Bem, o que mais chama sua atenção nessas mudanças?
MH: Bom, são 25 anos. Parte dos anos 80 eu fui espectador. Outro dia eu e o Nilo [Nunes, guitarrista da banda] fomos fazer uma apresentação no Circo Voador e a gente estava lembrando dessa época e é algo curioso porque num ano eu estava pedindo ingresso para entrar no Circo Voador e no ano seguinte eu estava tocando lá com aquelas bandas que eu queria assistir.

Quando eu tinha 13 ou 14 anos, a cena era completamente diferente. As gravadoras tinham alguns artistas chave e era como se dissessem "já temos Raul, temos Rita Lee... É o suficiente". Não havia muito espaço. Então chegar a um disco era um feito quase que inalcançável. Bom, tudo bem que na época a gente nem tinha a pretensão de viver de música. Porque os horizontes não eram dos melhores. A MPB ainda era muito forte no início dos anos 80...

Profissionalmente, não era muito viável ter uma banda de rock...
MH: Não. Não era uma opção. Não no comecinho dos anos 80. Eu nem tinha banda nessa época. Eu fazia música para os outros. Eu só descobri que podia cantar porque num ensaio de uma banda de amigos o vocalista faltou e eu fui pro microfone pra quebrar um galho. E nunca mais larguei o microfone...

Que ano foi isso?
MH: Ah... 83 ou 84. E a gente começou a pensar que poderia rolar algo quando a Blitz apareceu. Tinha umas coisas rolando, mas foi a Blitz que fez a gente ver que dava pra ter uma banda de rock. Depois veio o Paralamas e o Titãs. Isso tudo foi nos animando. Outras bandas começaram a surgir.

Mas as condições de gravação na época não eram boas. Os técnicos de som não estavam acostumados com bandas de rock. Eu lembrei de uma história engraçada... A gente participou de um festival e a nossa música ia entrar no disco do festival. Quando a gente foi gravar a música, passou primeiro a bateria e o Jonathas [Nunes, ex-baterista] falou que não estava gostando do som. E o técnico de som disse: "Como, não? Esse é o som que eu sempre tiro nos discos da Bethânia!" E a gente olhou um pra cara do outro e dissemos "Mas não é a Maria Bethânia! A gente quer outra coisa". E aquilo era uma ofensa para o cara. Então nem os técnicos de som, nem os produtores entendiam muito bem as bandas de rock. E às vezes rolava uma forçação de barra por parte das gravadoras. Pra você ter uma ideia, na música "Vital e Sua Moto", do Paralamas, aquele coro de vozes é dos Golden Boys. Eu imagino que para o Herbert não devia ser fácil dizer "olha, a gente não quer os Golden Boys". Foi o mesmo pra gente, ter que dizer que a bateria da Bethânia a gente não queria.

E os instrumentos? A gente não tinha uma bateria, por exemplo. Tivemos que aprender a fazer uma bateria. A gente não tinha grana para comprar uma. Os pedais do Nilo eram consertados por ele mesmo. Era tudo muito tosco. A gente estava engatinhando. Por um lado, foi bom. Porque a gente aprendeu muita coisa...

Era muito mais difícil do que começar uma banda nos dias de hoje...
MH: É inimaginável o quanto era difícil. Hoje, qualquer garoto entra numa loja, compra uma bateria e parcela em 12 vezes. Naquela época, os instrumentos que estavam à disposição aqui no Brasil eram caros e péssimos. Quando a gente queria um instrumento ou amplificador um pouco melhor, a gente comprava os usados das bandas de baile. Não existia essa oferta de equipamentos como hoje.

Outra coisa é que pra você entrar num estúdio pra gravar, naquela época, você ensaiava exaustivamente. Quatro, cinco ou seis horas de ensaio por dia. Porque não podia perder tempo no estúdio. E também porque se você chegasse e não gravasse, o técnico já ficava de mau humor com você. Eles gravavam com gente profissional. Quando chegava um garoto, eles diziam "Se você não conseguir gravar isso no tempo, vou chamar um profissional". Era assim que funcionava.

Essas dificuldades todas forçaram vocês a aprender mais e mais rápido?
MH: Com certeza. Quando eu resolvi que queria viver de música, meu pai sentou comigo e colocou alguns discos pra tocar. Depois de um tempo ele falou "cara, deu para você perceber com quem você vai brigar no mercado?". A gente tinha acabado de escutar Chico Buarque, Tim Maia... E ele ainda disse "Se você quiser ser lembrado, fazer alguma diferença, vai ter que desenvolver um estilo". Isso era um peso. Ser a nova geração, naquele processo de abertura da ditadura, era uma responsabilidade. Não era só levantar uma bandeira. Mesmo as bandas mais engraçadinhas, como o Ultraje a Rigor, não era só brincadeira. Tinha uma mensagem, as letras tinham qualidade.

O problema, hoje, é que você encontra facilidade em todos esses aspectos. Se eu fosse hoje um garoto de 15 anos e olhasse para o que se está produzindo no mercado, eu pensaria "eu estou pronto"...

Você está dizendo que o nível de qualidade baixou muito?
MH: Muitíssimo. Se hoje eu tivesse 15 anos e um produtor me perguntasse se eu estava pronto pra gravar um disco eu diria que sim, olhando para o mercado. Talvez aos 30 eu morresse de vergonha desse disco. A verdade é que aos 15 anos você não está amadurecido como compositor, como letrista, instrumentista. Você não está amadurecido como pessoa. A sua banda não teve tempo para amadurecer.

No seu caso, na sua época, você foram obrigados a amadurecer...
MH: Sim. A gente aprendeu muita coisa, inclusive uma certa ética e engolir alguns sapos. A própria experiência de convivência entre os integrantes da banda é um amadurecimento.

E isso só a experiência é que traz...
MH: Só os anos. Então, comparando o que havia na década de 80 e o que tem hoje, a facilidade de chegar muito rapidamente a um disco, um videoclipe - que no dia seguinte à publicação tem 500 mil acessos - faz essa banda ser alçada ao sucesso. Mas será que essa banda teve tempo de amadurecer? Será que o trabalho dessa banda estava pronto para ser apresentado ao público? Hoje as coisas são muito rápidas. Parece fast food. Nunca se produziu e nunca se ouviu tanta música como hoje em dia. Mas de péssima qualidade. Por que existe pressa. Eu posso gravar, desculpe, qualquer merda. Mas precisa chegar ao público rápido. Mas a verdade é que é preciso trabalho. Eu já fiquei seis meses em cima de uma letra. Já fiz 15 arranjos pra uma mesma música. Hoje em dia não tem mais isso.

Por falar em letras, parece que havia uma preocupação maior com elas. As bandas de rock hoje em dia não têm muito o que dizer?
MH: Olha... você pode falar sobre amor, mas não precisa ser como um cantor sertanejo. Eu fiz um disco inteiro com canções de amor, o "Canções de amor e morte", que tinha frustração, raiva, rancor e também amor profundo. Mas não precisa ser rasteiro... Como é que eu posso dizer isso sem ofender? Tá aí, esse é um dos problemas. A gente vive num patrulhamento tão grande, essa coisa do politicamente correto... E o rock precisa de atrito. Mesmo que não seja dos bons. Na década de 80 funcionou porque a gente tinha tido uma geração com Chico, Caetano, que arrumou uma forma de falar o que queria apesar da censura. Na década de 80 teve o começou da abertura então a gente podia dizer mais o que pensava e sentia. Mais ou menos. Tem uma música nossa, "O Cheiro", sobre o Collor, que as rádios não queriam tocar. Por que a música era forte.

Em função da geração que veio antes, a gente viu um espaço pra falar o que pensava. E hoje há um conformismo gigantesco. As pessoas parecem meio perdidas. É como se o rock fosse um dom Quixote, mas sumissem todos os moinhos. Não que os problemas tenham sumido. Eles estão aí, mas ninguém ousa falar. E não é um cara de 50 anos como eu que tem que falar isso. Eu posso até falar, mas isso deveria vir de uma nova geração.

Você vê essa nova geração acomodada?
MH: Sim. Uma coisa é um Caetano falar algo. Outra coisa é um moleque da sua idade falar algo impactante. E isso foi o que aconteceu na minha época. Os jovens falavam coisas que causavem impacto, que tinham profundidade.

Por falar em causar impacto, as músicas "Cartas aos Missionários" e "Dias Vermelhos" foram as responsáveis pelo sucesso do Uns e Outros. Como foi lidar com isso na época?
MH: Foi um negócio muito estranho. O sucesso é uma coisa engraçada. Dependia de um monte de coisas: da reação do público, do trabalho da gravadora, das rádios... "Carta aos Missionários" não era a música escolhida para estourar. A gravadora queria começar lançando "Dias Vermelhos". Mas a gente brigou com a gravadora, a gente insistiu. E duas semanas depois de lançada, a música estava entre as dez mais tocadas da rádio mais popular do Rio de Janeiro. E isso não é uma coisa que tem como prever.

Quanto a lidar com o sucesso... O sucesso pode te enganar, pode te dar uma falsa impressão de que todo mundo te ama. A gente chegou a tocar para 120, 150 mil pessoas num final de semana e até num show só. Só que você tem a noção de que aquele assédio todo... Entre aquelas 100 mil pessoas, se muito, 10 mil conhecem o teu trabalho. Mas o contato que a gente tinha com o fã era pequeno. Era basicamente nos shows. Às vezes pediam autógrafo e tirar foto era raro, não como hoje. Mas eu nunca curti essa coisa de se expor. Você não me vê exibindo fotos do meu filho, da minha esposa, eu não gosto disso.

E como é hoje o contato com os fãs, com as redes sociais aproximando o artista do público?
MH: Se for sadio, ok. Eu não gosto de exageros. Procuro responder com educação, mas detestaria virar um escravo disso. Eu preservo minha privacidade. Não me exponho e nem exponho minha família.

Para gente encerrar o assunto 'passado', eu queria trazer uma questão e espero que você não fique ofendido com a pergunta. É sobre...
MH: (interrompendo) Renato Russo?

É... A comparação que fizeram entre as bandas e entre sua voz e a dele, te incomodou muito?
MH: Não. Hoje, do alto dos meus 50 anos, não responderia a essas críticas. Mas na época, tantas pessoas falando pra gente e pra ele essas coisas, é claro que uma hora iria acabar em atrito. E o Renato acabou falando umas coisas, se não me engano, na revista Bizz, e eu respondi. Mas pensando hoje, foi sem necessidade. Aliás, não falo mais sobre isso desde que o Renato morreu. Não respondo mais sobre isso, até porque qualquer coisa que eu falar, o cara não vai poder responder. E isso é injusto. É sacana com a memória dele. Por mais problemas que a gente tenha tido, não foram problemas pessoais. Temos muitos amigos em comum.

E sobre a comparação das vozes, isso cai por terra em "Dias Vermelhos". Em "Carta aos Missionários" eu canto grave? Ninguém mais pode ter voz de tenor? (risos). E timbre de voz é uma coisa única, ninguém tem igual. O Renato cantava anasalado, pelo nariz [fala com voz anasalada, exemplificando], o meu canto não é anasalado... É comum haver comparações. Mas pra você julgar tem que escutar o trabalho todo da banda. Naquela música pode ser parecida a voz pois eu canto grave, mas outras músicas que eu não canto assim, não tem a menor relação. Para quem acusava o Uns e Outros de ser cópia, eu pergunto: que cópia durou mais do que 25 anos? Haviam coisas parecidas e coisas muito diferentes entre as duas bandas... Nossas influências, vindas dos anos 60 e 70, eram parecidas.

Vamos falar do disco novo... Ele tem uma música inédita, "Pra Esquecer Você". Quando ela foi feita?
MH: Um pouco antes de acabar a mixagem do disco a gente fez e resolveu incluir. Essa música fala sobre pegar a estrada, sobre separação e ficar longe da família. Quando você vai pra estrada você se despede de um monte de coisas. Até da reunião na escola do filho. Por exemplo, eu não consegui ver o nascimento do meu filho, eu estava na estrada. Esse tipo de sentimento está na música. A vida na estrada cria alguns conflitos dentro de casa. Não é fácil. As pessoas acham que a vida na estrada é maravilhosa... Não é. Você fala que foi pra Manaus e aí te perguntam "o que você conheceu em Manaus?" e você viu o hotel, uma rádio e o local do show... E só. Fora os sufocos (risos).

E vocês pretendem trabalhar em músicas novas?
MH: Será que o mercado quer material inédito? Eu não sei. A gente tem umas músicas pra apresentar, mas será que vamos lançar? Temos algumas músicas antigas que não entraram nos discos e temos músicas novas. Mas eu te pergunto: será que as pessoas querem escutar?

Você acha que o mercado está saturado?
MH: É tanta coisa, tanta gente lançando música... Acho que o público fica com saudade da gravadora, quando não tinha que escolher o que ouvir. O que tem pra ouvir hoje? Hoje tem 250 mil opções. Eu não quero 250 mil opções. Na época das gravadoras - e eu não estou defendendo as gravadoras, não mesmo, ainda que eu reconheça algumas qualidades delas - por mais que você tivesse ódio do seu diretor artístico, ele era um filtro. O que não existe hoje e faz com que a música esteja com péssima qualidade. Aquele cara parava e ouvia.

Por exemplo, lá em 1988, a gente deixou uma fita demo na Sony com quatro músicas. O pessoal gostou muito e fomos chamados. O cara falou: "Traz uma demo melhor que a gente vai ter uma reunião. Essa fita não está legal. E por favor, não esqueça das letras das músicas batidas à máquina". E eles enchiam o saco com erros de português, concordância, falta de plural. Uma vez escrevi numa letra "O Cristo que roguei a cura" [a música é "O Cristo da Parede"]. O diretor artístico me chamou e levei uma carcada: "O Cristo A QUEM roguei a cura". E isso era o tipo de coisa que envergonhava muito a gente. Esse tipo de cuidado existia. Hoje o cara grava com péssima qualidade, com a letra de qualquer jeito. E tá todo mundo junto, competindo a atenção do fã.

As pessoas se cansam de tanta coisa pra escolher. É tanta coisa que as pessoas deletam. Sem contar que sucesso hoje é uma coisa sem sentido. As pessoas se esquecem que pra fazer sucesso tem que ter feito alguma coisa. É uma questão muito complicada... De qualquer modo, as pessoas vão continuar gostando de rock. Quem gosta de rock, vai continuar gostando. Existe o público, tanto que os festivais no Brasil inteiro lotam. A salvação do rock nacional está nas mãos das bandas. E se elas se esquecerem um pouco que precisam ter uma site, um Twitter, um Facebook, um Instagram, talvez elas tenham tempo de fazer música.

Você gostaria de deixar alguma mensagem, dizer algo para esse pessoal novo?
MH: Eu gostaria de dizer que uma banda, para sobreviver, e eu estou falando não só da gente, mas dessa galera nova, precisa sair de casa. As pessoas precisam sair de casa. Não adianta ficar só no Facebook falando "que massa, vai ter show" e depois não aparecer. Eu não posso reclamar, as pessoas têm comparecido aos shows da gente. O que eu noto é que existe uma força gigantesca das pessoas na internet mas a gente gostaria de sentir essa mesma forma também nos shows. Não adianta ser torcedor de sofá. Seria bom que isso se refletisse também nos shows, na compra dos discos - porque uma banda não sobrevive de vento. Baixou o disco, ótimo. Gostou? Então compra. É como quando perguntam porque a gente não grava um DVD. Ah, ótima ideia, como eu não pensei nisso antes do café da manhã? Ou então perguntam se a gente vai tocar em Manaus. Como se fosse só pegar um avião e pronto. As pessoas não tem muita noção.

E como está a agenda da banda? Muito shows?
MH: Temos alguns até o final do ano, mas em dezembro dá uma parada, porque tudo para, e voltamos em março. Estamos bem animados. A gente vê que o público se renova. Tem a galera mais velha e tem uma molecada de 15, 16 anos. Acho que são os pais passando para os filhos. Ou os tios que apresentaram a banda. Isso é bem legal. Aliás, isso é uma das coisas boas da internet, o cara busca lá e encontra a banda. Como a gente tá ficando velho a gente só reclama, mas tem muita coisa boa que se não fosse a internet, não teríamos acesso...   

CURTA AQUI O CLÁSSICO "CARTA AOS MISSIONÁRIOS" DA DÉCADA DE 80:
 

Com informação do Território da Musica

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