quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Racionais MC’s: Cores & Valores

 O mundo mudou e os Racionais também, mas o que importa continua igual
 
Muito mudou no Brasil desde 2002, quando o Racionais MC’s lançou o épico em duas partes “Nada Como Um dia Após o Outro Dia”. E se a realidade mudou, o som dos Racionais só podia ter feito o mesmo. Até porque, muito dessa mudança foi causada por eles, no caso da cena rap e da representatividade desse gênero na música popular.

Mas os Racionais sempre foram mais que rima. Por mais que sempre tenha um Zé ruela que diga que quem faz sucesso se vendeu, o rap de Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay sempre teve foco no compromisso com a verdade como ela era vivida por seus integrantes enquanto parte de uma comunidade. Os Racionais se tornaram a voz da periferia que invadiu com mais força a classe média logo antes dessa movimentação social começar a acontecer de fato. “Inacreditável, mas seu filho me imita”, já dizia a letra de “Negro Drama” quando os adolescentes em colégios particulares adotavam a bombeta e moletom como uniforme.

Mas se o Vida Loka odiava ostentação, agora ele compra “cordão que agride os pano de grife” e “mansão de elite” simplesmente porque pode. Porque merece. Porque “pro favela é proeza ostentar a nobreza” (“Eu Compro”). Mas “os nego quer não só viver de aparência, quer ter roupa, quer ter joia e se incluir”, sendo inclusão a palavra-chave. As roupas de marca que circulam na favela, assim como as aparições dos rappers em programas de televisão e as novas batidas que aparecem em “Cores & Valores” nada mais são do que sinais positivos da mudança dos tempos, de que agora esses mundos são mais acessíveis e as possibilidades são maiores. Esse é o momento do verdadeiro “Ri Depois” que “Nada Como Um Dia Após o Outro Dia” profetizava.

A César o que é de César, ao povo o que é do povo: quem se incomoda por ver os MC’s experimentando com novos ritmos e instrumentos – tem uma guitarra em “Quanto Vale o Show?”, que aproveita um sample do tema de “Rocky” (“Gonna Fly Now”, de Bill Conti) é porque na verdade não aceita a mudança que o grupo sempre pregou. Ainda bem que hoje dá para falar de amor e em lutar para ser feliz, não só sobreviver no inferno.

São apenas 32 minutos divididos em 15 faixas que na verdade estão ligadas entre si, quase costuradas inclusive. Poucas músicas na primeira metade passam da marca de um minuto, e a partir de “Eu Compro” começa uma sequência ainda mais intensa. Dá para pegar fôlego na balada inesperada “O Mau e o Bem”, logo depois do flashback violento de “A Praça”, que revive o fatídico show na Virada Cultural de 2007, mas mesmo com todas suas particularidades inéditas e surpreendentes as músicas se emendam em um conjunto coerente em mensagem e melodia. E “Eu Te Proponho” realmente encerra deixando a sensação de que isso é só o começo.

Passa tão rápido, e é tão bom, que quando você vê está ouvindo de novo, e de novo, e de novo. Ou seja, é curto mas deixa uma impressão duradoura. Como dizem que as melhores coisas da vida são. 

 

PLAYLIST:
01. Cores & Valores
02. Somos o Que Somos
03. Cores & Valores: Preto e Amarelo
04. Trilha
05. Eu Te Disse
06. Preto Zica
07. Cores & Valores: Finado Neguin
08. Eu Compro
09. A Escolha Que eu Fiz
10. A Praça
11. O Mau e o Bem
12. Você Me Deve
13. Quanto Vale o Show?
14. Coração Barrabaz
15. Eu te Proponho 

Fonte: Território da Musica
 

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